sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Efêmera beleza estética.



Sabes?... O que é a beleza estética senão a mais efêmera forma de admirar-se alguém? Que é esta “beleza” admirada tão somente pelos – vagos, repletos de inexistente júbilo – olhares deslumbrantes? Quantos não se apaixonam por tal beleza, e não pela verdadeira essência do ser? Digo, pois, que os que o fazem são tão efêmeros quanto. Deixar-se levar pela exultação d’um transitório estado de matéria – a humana carne, rota, a ser devorada pelos hiantes vermes – é um equívoco e tanto; mas, por fim, não compreendem os iludidos a extensa maioria? Celebrar a concisão de algo mortal tem-se tornado, a cada novo crepúsculo, o declínio do romantismo, do amor em sua incontestável condição de inigualável pureza. O fato é devido, atente-se, pela vasta escassez de “cultura” do meio social em qual habita o – como o hei de chamar – ser “inculto dos sentidos”. Os jovens, por exemplo, têm-se preocupado deveras com sua forma física – digo-o de modo exagerado, pois cuidar do corpo é, também, saudável -, o que é percebido em festas, nos desfiles, no cinema, na televisão, em propagandas, em jogadas de marketing, até nas ruas, enfim. Recente pesquisa demonstra que mulheres gastam por volta de R$ 800,00 (oitocentos reais!) por mês entre academia, tratamentos estéticos, etc. em busca da “forma perfeita”. Terão elas se esquecido de que, necessito intensificar a questão, a matéria é transitória? Sentem-se incomodadas, desnutrem-se - morrem com anorexia -, sentem-se rejeitadas – por si mesmas, atrevo-me a dizer, em todos os casos -, mal-estar... Quando são, em verdade, pessoas de bela aparência. Os dias que assim passam jamais retornarão... Quando perceberem – se o fizerem – os momentos de alegria, de paz – de autoconhecimento, vida, verdadeiro entusiasmo quanto à beleza ¹ - perdidos, pode ser tarde; se não o for, poderão passar o restante dos dias a lamentarem-se do tempo perdido... Dever-se-ia cultuar menos a efemeridade e passar-se a celebrar as cousas verdadeiramente dignas de tal. Se ama-se, devia-se fazê-lo pelo que a pessoa é interiormente, por sua alma, seu espírito, sua verdadeira forma – e não por seu simples casulo, rota carcaça a ser deixada como rastros, nebulosas lembranças do que terão sido...

.
.
.

¹ Por “verdadeiro entusiasmo quanto a beleza”, fora de minha pretensão fazer-se entender: estar a contemplar as nuvens, formar imagens com suas aparentemente abstratas formas; sentir o doce aroma de uma flor, cuidar de alguma planta – crer na vida -, andar de mãos dadas com a pessoa amada, estarem sentados à beira dum lago a perceberem como as águas formam pequenas ondulações ao toque dos pingos de chuva, a cabeça dela nos ombros dele, o braço dele envolto no corpo dela... Ir ao cinema, divertir-se com os amigos – real agradável diversão, e não o, pode-se dizer, “maléfico entretenimento” de qual usufrui a atual geração -; escrever poesias, assistir a uma peça teatral, ler um bom livro, dedicar-se à música, ou a qualquer forma de arte; por fim...